ASA, ERAS e ASGE estabeleceram protocolos para suspensão do GLP-1 antes de cirurgias, colonoscopias e procedimentos odontológicos. Entenda os prazos e os riscos envolvidos.
A relação entre agonistas do receptor de GLP-1 e o esvaziamento gástrico colocou uma questão concreta na pauta da anestesiologia e das especialidades cirúrgicas: quando e por quanto tempo esses medicamentos devem ser suspensos antes de procedimentos que requerem sedação ou anestesia geral?
A preocupação central é o risco de broncoaspiração. Os GLP-1 retardam o esvaziamento gástrico de forma dose-dependente. Em pacientes submetidos a anestesia geral, a aspiração do conteúdo gástrico para as vias aéreas é uma complicação grave, com mortalidade estimada entre 5% e 7% nos casos sintomáticos, segundo dados publicados no British Journal of Anaesthesia. O risco aumenta quando o estômago não está vazio no momento da indução anestésica.
Até 2023, não havia consenso formal sobre o manejo dos GLP-1 no período pré-operatório. Esse vácuo foi preenchido com publicações das principais sociedades de anestesiologia e endocrinologia, que estabeleceram recomendações baseadas na farmacodinâmica dos medicamentos.
O que a American Society of Anesthesiologists estabeleceu
Em junho de 2023, a American Society of Anesthesiologists (ASA) publicou orientações específicas para o manejo perioperatório dos GLP-1. Para pacientes em uso de formulações de dose semanal, como semaglutida injetável (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro), a recomendação é de suspensão por pelo menos 7 dias antes de procedimentos eletivos que requeiram anestesia geral ou sedação profunda.
Para formulações de dose diária, como semaglutida oral ou liraglutida, a ASA recomenda suspensão de 1 dia antes do procedimento.
Essas recomendações foram mantidas e detalhadas na publicação da Perioperative Quality Initiative (POQI), que reuniu anestesiologistas, endocrinologistas e cirurgiões para elaborar um consenso multidisciplinar, publicado no British Journal of Anaesthesia em fevereiro de 2024.
O documento da POQI acrescentou uma nuance importante: a decisão final deve considerar o risco individual. Pacientes com gastroparesia conhecida, histórico de refluxo gastroesofágico significativo ou uso em doses altas têm risco aumentado e podem exigir período de suspensão mais longo, além de jejum estendido no dia da cirurgia.
Colonoscopia: risco diferente, protocolo semelhante
A colonoscopia apresenta um risco distinto. O esvaziamento gástrico retardado não interfere diretamente na visualização do cólon, mas afeta o preparo intestinal. Pacientes em uso de GLP-1 podem apresentar maior dificuldade para completar o preparo com laxativos osmóticos, além de maior risco de resíduo gástrico significativo durante a sedação do procedimento.
A American Society for Gastrointestinal Endoscopy (ASGE) recomenda, em sua diretriz de 2024, a suspensão do GLP-1 por pelo menos 7 dias antes de colonoscopias com sedação, alinhando-se ao protocolo da ASA para procedimentos cirúrgicos. Para colonoscopias sem sedação, a decisão fica a critério do médico assistente.
Estudos de caso publicados em 2023 documentaram episódios de aspiração pulmonar durante colonoscopias com sedação em pacientes que não haviam suspendido o GLP-1 previamente, o que acelerou a formulação das recomendações formais.
Procedimentos odontológicos
Os procedimentos odontológicos apresentam uma gradação de risco. Consultas rotineiras sem sedação, como extração simples, restauração ou limpeza, não requerem suspensão do GLP-1. O risco de aspiração é considerado baixo nesse contexto, já que o paciente permanece consciente e com reflexos laríngeos preservados.
A situação muda quando há sedação consciente ou anestesia geral para procedimentos mais extensos, como cirurgias bucomaxilofaciais, extração de sisos com sedação intravenosa ou implantes em múltiplas etapas. Nesses casos, o protocolo segue a mesma recomendação da ASA: suspensão 7 dias antes para formulações semanais, 1 dia para formulações diárias.
Dentistas e cirurgiões bucomaxilofaciais são orientados pelas diretrizes a incluir a pergunta sobre uso de GLP-1 no questionário de saúde pré-procedimento, o que ainda não é prática universal nos consultórios.
O protocolo ERAS e os GLP-1
O protocolo ERAS (Enhanced Recovery After Surgery) é um conjunto de diretrizes perioperatórias que buscam reduzir complicações e acelerar a recuperação após cirurgias. Em sua atualização de 2023, o ERAS incorporou recomendações sobre os GLP-1, reconhecendo o crescimento exponencial do uso desses medicamentos na população cirúrgica.
A ERAS recomenda que, na avaliação pré-anestésica, todos os pacientes sejam questionados sobre uso de GLP-1, com documentação do medicamento específico e da dose. A suspensão programada deve ser planejada junto com o endocrinologista ou médico que acompanha o tratamento, para definir como será gerenciado o controle glicêmico ou o peso durante o período sem medicamento.
Para pacientes diabéticos que usam GLP-1 como parte do controle glicêmico, a suspensão pré-operatória requer atenção redobrada. A glicemia pode elevar-se durante o período sem o medicamento, especialmente em pacientes com hemoglobina glicada elevada. O endocrinologista pode recomendar ajuste temporário da insulina ou de outros hipoglicemiantes durante esses dias.
Retomada após o procedimento
A retomada do GLP-1 após cirurgia ou procedimento invasivo também segue orientações específicas. A POQI recomenda aguardar a retomada da alimentação por via oral antes de reiniciar o medicamento, dado que o retardo do esvaziamento gástrico pode agravar náuseas pós-operatórias quando o trato digestivo está em fase de recuperação.
Em cirurgias abdominais maiores, onde o retorno da motilidade gastrointestinal pode levar dias, a retomada do GLP-1 costuma ser postergada até a liberação da dieta oral plena pelo cirurgião.
Plataformas de monitoramento como o Ozempro permitem que o paciente registre interrupções e retomadas do tratamento, mantendo o médico informado sobre o histórico completo de uso, o que é especialmente útil no planejamento perioperatório.
O questionário disponível por aqui ajuda a mapear o perfil de uso e as condições de saúde do paciente, o que pode ser um insumo útil na conversa com a equipe cirúrgica antes de qualquer procedimento.
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Aviso: Este conteúdo é apenas informativo e não substitui orientação médica profissional. Consulte sempre seu médico antes de iniciar, alterar ou interromper qualquer tratamento.