Os estudos STEP 4 e SURMOUNT-4 documentaram reganho expressivo após descontinuação do GLP-1. Entenda os mecanismos fisiológicos e as estratégias para minimizar o impacto.
O que acontece quando um paciente para de tomar GLP-1? A resposta mais direta está nos dados: o peso retorna. Não de forma gradual, mas em uma velocidade que surprendeu os próprios pesquisadores dos estudos de extensão.
O estudo STEP 4, publicado no JAMA em 2021, foi um dos primeiros a quantificar esse fenômeno com rigor. O desenho do estudo era simples: após 20 semanas de uso de semaglutida 2,4 mg com perda média de 10,6% do peso corporal, os participantes foram randomizados para continuar com o medicamento ou fazer a transição para placebo por mais 48 semanas. O grupo que descontinuou recuperou, em média, dois terços do peso perdido durante o período de acompanhamento. O grupo que continuou seguiu perdendo peso.
A magnitude do reganho chamou atenção. Não se tratava de recuperar alguns quilos. Em 48 semanas após a suspensão, os participantes do grupo placebo haviam recuperado 6,9% do peso inicial, enquanto o grupo que continuou com semaglutida perdia mais 7,9%. A diferença entre os dois grupos ao final de 68 semanas totais era de 14,8 pontos percentuais de peso corporal.
SURMOUNT-4: os dados com tirzepatida
O estudo SURMOUNT-4, publicado no JAMA em 2024, replicou o delineamento com tirzepatida, o agonista dual GIP/GLP-1. Os resultados foram semelhantes em direção, com algumas diferenças nas magnitudes absolutas.
Após 36 semanas de uso de tirzepatida com redução de peso de 20,9%, os participantes foram divididos entre os que continuaram e os que trocaram para placebo. Em 88 semanas de acompanhamento total, o grupo que parou o medicamento recuperou 14% do peso, enquanto o grupo que continuou perdeu mais 5,5%. A diferença entre os grupos ao final era de 19,5 pontos percentuais.
Esses números confirmaram o que o STEP 4 havia sinalizado: a interrupção do GLP-1 não apenas para a perda de peso, mas reverte boa parte dos ganhos obtidos. A pergunta que os dados levantam é por quê.
Os mecanismos fisiológicos por trás do reganho
O reganho de peso após descontinuação dos GLP-1 não é resultado de falta de disciplina. É fisiologia. Os GLP-1 alteram a regulação do apetite por meio de mecanismos centrais e periféricos que não permanecem ativos após a retirada do medicamento.
Em nível central, os GLP-1 reduzem a sinalização de fome no hipotálamo e aumentam a percepção de saciedade. Quando o medicamento é suspenso, esses efeitos desaparecem em dias, e o sistema de regulação do apetite retorna ao estado basal pré-tratamento. Para pacientes com obesidade, esse estado basal já está alterado por mecanismos neuroendócrinos que favorecem o acúmulo de gordura.
Em nível periférico, a redução do esvaziamento gástrico proporcionada pelo GLP-1 contribui para saciedade mais prolongada. Com a suspensão, o esvaziamento gástrico acelera, e a janela entre as refeições encurta. Um artigo de revisão publicado em Nature Reviews Endocrinology em 2023 documentou que, após descontinuação de semaglutida, os marcadores de fome fisiológica como grelina e peptídeo YY retornam a níveis pré-tratamento em 2 a 4 semanas.
Há também o efeito sobre a adiposidade visceral. Os GLP-1 promovem redução preferencial de gordura visceral, que está associada a maior risco cardiovascular e metabólico. O reganho após suspensão tende a ocorrer de forma mais uniforme, incluindo repartição da gordura que não segue o padrão obtido com o medicamento. Dados do STEP 4 mostraram que os ganhos em marcadores cardiometabólicos, como pressão arterial e perfil lipídico, também reverteram parcialmente após a descontinuação.
Quanto tempo leva para o reganho começar
Os dados do STEP 4 mostram que o reganho começa nas primeiras semanas após a suspensão e acelera nas semanas seguintes. A velocidade máxima de reganho ocorre entre a 4ª e a 20ª semana após a interrupção. Depois disso, o processo desacelera, mas raramente estabiliza completamente no peso obtido com o medicamento.
Esse padrão é consistente com a biologia da regulação do peso corporal. O organismo tem mecanismos adaptativos que favorecem o retorno ao peso habitual, fenômeno documentado mesmo sem o uso de medicamentos, em estudos de intervenção dietética e cirurgia bariátrica revisional.
Quem tem maior risco de reganho expressivo
Não todos os pacientes que param o GLP-1 recuperam o mesmo percentual de peso. Análises dos dados do STEP 4 identificaram fatores associados a reganho mais intenso: tempo de uso mais curto antes da suspensão, ausência de mudanças no padrão alimentar e de atividade física durante o tratamento, e histórico de peso com múltiplos ciclos de perda e ganho (efeito sanfona). Pacientes que aproveitaram o período de uso para estabelecer novos hábitos de alimentação e exercício apresentaram reganho mais lento e menor.
Ferramentas como o Ozempro consolidam esses dados ao longo do tratamento, permitindo que médico e paciente tomem decisões informadas sobre a continuidade ou eventual pausa do medicamento com base no histórico real, não em estimativas.
O que fazer se a descontinuação for necessária
Quando a interrupção é inevitável, seja por custo, escassez, cirurgia ou efeitos adversos, a abordagem mais documentada para minimizar o reganho envolve quatro frentes.
A primeira é não reduzir o acompanhamento nutricional no período de transição. A retirada do medicamento é o momento de maior vulnerabilidade, e a supervisão frequente com nutricionista reduz a velocidade do reganho.
A segunda é manter a atividade física, especialmente o treinamento de resistência. A manutenção da massa muscular durante o reganho melhora a composição corporal e preserva parte dos ganhos metabólicos obtidos com o GLP-1.
A terceira é considerar a reintrodução do medicamento em dose menor como estratégia de manutenção, caso o reganho ultrapasse determinado limiar. Dados do SURMOUNT-4 mostram que a resposta ao medicamento na reintrodução é semelhante à da introdução original.
A quarta é o acompanhamento psicológico. O reganho de peso tem impacto documentado na saúde mental, especialmente em pacientes com histórico de transtorno alimentar ou baixa autoestima associada ao peso. Plataformas de monitoramento como o Ozempro permitem que o paciente registre sintomas e humor ao longo do tratamento e da descontinuação, facilitando a comunicação com a equipe de saúde.
Para entender melhor o perfil de cada paciente e como o acompanhamento personalizado pode ser estruturado, o questionário disponível clicando aqui oferece um mapeamento inicial útil.
Mais sobre os dados de resultados do tratamento com GLP-1 em O que os estudos registram mês a mês, em Como saber se o GLP-1 está funcionando e em Platô no GLP-1: como superar.
Aviso: Este conteúdo é apenas informativo e não substitui orientação médica profissional. Consulte sempre seu médico antes de iniciar, alterar ou interromper qualquer tratamento.